terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Como a autoconfiança em excesso pode prejudicar sua vida profissional

Veja quais cuidados você precisa tomar para não cair nessa armadilha

Por Luciana Lima
Gustavo Andare, fundador da Esmalteria Nacional, de São Paulo | <i>Crédito: Germano Lüders
Gustavo Andare, fundador da Esmalteria Nacional, de São Paulo | Crédito: Germano Lüders
Em 1995, o americano McArthur Wheeler foi preso enquanto assaltava um banco na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia. O detalhe curioso da história é que o ladrão não fazia o mínimo esforço para esconder o rosto durante os crimes e, quando pego, somente conseguia repetir que "havia passado o suco". A frase, aparentemente sem nexo, foi explicada mais tarde, quando McArthur afirmou à polícia que acreditava que, ao aplicar suco de limão no rosto, conseguiria burlar as câmeras do sistema de segurança das instituições.

O caso absurdo do ladrão serviu de ponto de partida para a tese de David Dunning e Justin Kruger, professor e aluno de psicologia na Universidade Cornell, também nos Estados Unidos, que ficou popularmente conhecida como a "síndrome do idiota confiante". 
Publicado em 1999, após uma série de testes, o estudo apontou que os indivíduos com pior desempenho foram aqueles que também tiveram a menor capacidade de avaliar as próprias habilidades e que acreditavam ter resultados melhores do que efetivamente obtiveram. 

Os pesquisadores chegaram à conclusão do que ficou chamado de "efeito Dunning-Kruger": algumas pessoas se sentem autoconfiantes sobre assuntos nos quais têm conhecimento limitado ou nenhum conhecimento. "Todos nós somos vulneráveis a esse fenômeno, pois tudo o que é preciso para agir assim é incompetência ou desconhecimento sobre algo. Exatamente por não entender a complexidade, você não consegue perceber quão irreal e desconexa pode ser sua crença sobre o tema", diz o professor David Dunning.

No ambiente corporativo, onde muitas vezes a palavra predominante é "competitividade", é grande o risco de reproduzir comportamentos como esse. "Existe o mito do indivíduo que precisa ter sempre resposta para tudo e que deve ser proativo em qualquer situação, por isso muitos profissionais acabam compelidos a tomar atitudes e a dar respostas de qualquer jeito, mesmo que não estejam preparados", afirma Anderson Sant’anna, professor na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. "Algumas empresas, inclusive, valorizam os perfis que são mais exibicionistas e atirados, o que estimula ainda mais quem já tem uma tendência a ser autoconfiante em excesso."

Com a internet e a facilidade de acesso às informações, a possibilidade de superestimar o conhecimento também se amplia. Segundo outro estudo, dessa vez da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, as pessoas tendem a se achar muito mais inteligentes depois de apenas alguns cliques na rede. 

Para comprovar essa teoria, os pesquisadores realizaram nove experimentos com voluntários americanos. Em um deles, foi solicitado ao primeiro grupo que buscasse na internet a resposta para algumas perguntas. Para o segundo grupo, não foi dada a possibilidade de pesquisas online. Na etapa seguinte, pediu-se aos dois grupos que avaliassem sua capacidade de responder por conta própria a outras questões sobre o tema. O grupo que pôde acessar a internet foi muito mais otimista ao medir os próprios conhecimentos em comparação àqueles que não tiveram acesso à internet. 

Nas empresas, não é raro perceber as consequências desse efeito Google. "Com a entrada de novas gerações e a diminuição da hierarquia, é muito comum vermos estagiários dando palpites, muitas vezes de forma exagerada, em assuntos da presidência, por exemplo. Ignoram anos de experiência e acreditam que, por meio de alguns tutoriais, já são mais entendidos do negócio do que executivos com anos de carreira", afirma Raphael Falcão, diretor da Hays Experts, divisão de recrutamento de média e alta gerência da Hays, de São Paulo.

Tão bom assim?

Na vida profissional, o excesso de autoconfiança, quando não está aliado a competências reais, pode cobrar um preço alto. "Além de gerar custos com retrabalho, pode criar problemas com a equipe", afirma Anderson. Isso porque, geralmente, pessoas narcisistas inibem as demais, não conseguem criar discussões amplas e tomam decisões apressadas com base em achismos.
O paulista Gustavo Andare, de 36 anos, sofreu com os efeitos nocivos do excesso de confiança. Formado em eletrônica, logo no primeiro emprego em uma multinacional, percebeu que desejava empreender. Com 22 anos e sem muita experiência, decidiu se juntar a alguns amigos e abrir uma casa noturna na Vila Olímpia, bairro de São Paulo que estava atraindo diversos estabelecimentos desse estilo na época. "Não foi nada planejado, simplesmente decidimos que queríamos trabalhar com isso. Pura molecagem", afirma Gustavo. 

Surpreendentemente, a empreitada deu certo e, em menos de seis meses, o empreendimento dava lucro. Com a exposição, Gustavo recebeu uma proposta para começar um segundo negócio em Maresias, no litoral norte de São Paulo. "Dessa vez a sorte não foi suficiente", diz. Empolgado pelo sucesso, Gustavo deixou a parte financeira sob responsabilidade do sócio recém-conhecido. Um belo dia acordou e descobriu que o parceiro havia sumido e deixado um rombo de 80 000 reais nas contas do estabelecimento. "Meus pais e colegas já haviam me alertado, mas eu acreditava que sabia muito e que não precisava me preocupar", afirma.

De volta a São Paulo, Gustavo teve de vender a porcentagem no bar para pagar as dívidas do negócio malfadado e recomeçar. Vendeu esculturas de madeira nas ruas, fez outra faculdade e, alguns anos depois, decidiu que era hora de tentar de novo. Foi aí que fundou, em 2012, a Esmalteria Nacional, rede de franquias de serviços de manicure. E o antigo fracasso fez com que ele mudasse de atitude em relação ao empreendedorismo. "Pesquisei, fui a diversos salões e quis entender a fundo esse mercado e o que eu traria de diferente." Com outras 270 unidades e quatro negócios que faturam 2,5 milhões de reais, ele acredita que não estaria onde está se não tivesse revisado sua autoconfiança. "Aquela experiência me tornou mais ponderado e humilde."

Superioridade ilusória

Assim como Gustavo, muita gente pode perceber que está errando a mão no marketing pessoal quando já é tarde demais, porém, nem todos conseguem mudar de atitude. "Algumas pessoas entram em um processo ilusório que se retroalimenta. Quando começa a dar certo uma, duas vezes, você vai se convencendo de que é aquilo e vai criando uma máscara", diz Aristides Brito, neurocientista e diretor da consultoria Marca Pessoal Treinamentos, de São Paulo. Mas o trauma pode ser grande quando um fracasso acontece. "Quando fracassam, esses indivíduos tendem a ficar com uma crise enorme de autoestima e entrar em um processo destrutivo."

Embora associemos esse comportamento a pessoas que acreditam muito nas próprias qualidades, esses perfis também podem esconder, no fundo, uma baixa autoestima. "Algumas pessoas, mesmo quando se superestimam, o fazem por falta de confiança. Precisam se provar tanto para elas quanto para quem está ao redor. Os homens, principalmente, devido a uma pressão social maior, tendem a se esconder atrás de uma suposta autoconfiança exacerbada", afirma Roberto Debski, psicólogo clínico, de São Paulo. 

Para quem está em posições de liderança, essa superioridade ilusória é ainda mais nociva - e mais fácil de acontecer. "Com o poder, as pessoas acabam acreditando que são, e não que estão líderes. Por estarem cercados de gente que quer agradá-los e não tem coragem de apontar erros, alguns líderes ficam fechados em uma torre de marfim e se creem invencíveis", diz Ana Pliopas, do 
Hudson Institute of Coaching, de São Paulo.

Nesse contexto, quem tem autocrítica leva vantagem em relação a quem nem sequer enxerga suas limitações. Por isso, no quadro oposto, a chamada "síndrome do impostor" - aquela sensação constante de ser uma fraude e de não merecer estar no lugar que ocupa -, quando bem dosada, pode ser benéfica. "Se a pessoa trabalhar a inteligência emocional, essa autocrítica vai levá-la ao crescimento. O ideal é que ela não se coloque para baixo nem se iluda sobre suas reais capacidades", afirma Roberto.

Dose certa

O engenheiro de dados Luiz Filipe Santos, de São Paulo, fez as pazes com sua patrulha interna e usa o excesso de autocrítica a seu favor. "Na empresa em que trabalhava anteriormente eu me achava uma fraude. Havia entrado como analista e, dois anos depois, passei a gerenciar as pessoas que começaram comigo. Esse crescimento rápido me fez duvidar de mim mesmo", afirma. 

Com a ajuda de amigos, Luiz Filipe estudou o assunto e hoje, aos 37 anos, lida melhor com a desconfiança interna - e até aposta que ela o ajude a tomar boas decisões. "Passei a ser uma pessoa analítica e ponderada. Não fico mais deprimido com meus fracassos, mas entendo que aquilo faz parte do meu crescimento", diz. 

Por outro lado, assim como a autocrítica, se bem dosada, a autoconfiança também é benéfica. "Quando você não sabe a complexidade daquilo que vai fazer e encara o desafio mesmo assim, demonstra coragem e é estimulado a conquistar mais. Há uma curva de aprendizado e maturidade quando você se depara com obstáculos", afirma Ana Pliopas. 

O segredo, então, é o equilíbrio: nem a humildade em demasia (que cria profissionais tímidos e incapazes de mostrar suas potencialidades); nem a autoconfiança em excesso (que impede que o indivíduo ouça as pessoas que estão ao redor e reconheça as próprias limitações). Na dúvida, escolha o caminho do meio.
 
Esta matéria foi publicada originalmente na edição 223 da revista Você S/A.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Use esta “mania” de Barack Obama para falar melhor em público

Em seus 8 anos de governo, ex-presidente dos EUA foi elogiado por suas habilidades de comunicação. Veja um detalhe na oratória dele que faz toda a diferença

São Paulo — Os fãs do ex-presidente americano Barack Obama não o admiram apenas por suas habilidades políticas: também não faltam elogios ao seu talento para falar em público.
O político é um verdadeiro mestre da oratória, diz Carmine Gallo, especialista em comunicação, à revista Forbes. Obama usa uma linguagem concreta, repete palavras para dar ênfase a certas ideias e explora a riqueza expressiva dos gestos e da voz.
Mas há um detalhe mais sutil por trás da comunicação do ex-líder dos Estados Unidos, afirma a jornalista Wanda Thibodeaux, em artigo para o site Inc. O segredo está… em inserir…algumas breves pausas…no seu discurso.
Sim, isso mesmo. A frequência com que Obama quebra a fala, que já foi até motivo para brincadeira do apresentador Steven Colbert, não tem a ver com dúvida ou hesitação. Na verdade, as pausas transmitem cuidado com a linguagem e autoconfiança, diz Thibodeaux.
A maioria das pessoas usa palavras e sons como “Hum”, “É…” ou “Sabe” para preencher o silêncio enquanto estão pensando no que dizer a seguir. Empregados em excesso, esses recursos podem se tornar cansativos e gerar distração na plateia.  
Como evitar isso? Faça pequenos intervalos, e não tenha medo deles. “As pausas causam uma impressão melhor do que as palavras usadas para preencher o silêncio, porque os ouvintes sabem que você está se esforçando para encontrar a melhor palavra, e respeitam esse processo”, escreve a jornalista.
Além disso, continua ela, quando Obama interrompe o que está dizendo por alguns segundos, ele demonstra que tem autoconfiança suficiente para assumir o silêncio, e que está se expressando de forma consciente, inteligente e controlada.
Isso também dá tempo para o ouvinte processar a mensagem de forma profunda, o que torna a comunicação mais eficaz e persuasiva.
Como incluir as pausas na minha fala?
Um exercício muito simples ajuda a tornar as suas frases tão “aeradas” quanto às do ex-presidente dos Estados Unidos. Em artigo para o site CBS News, o coach Sims Wyeth sugere que você escreva um texto e faça marcas para separar blocos usando o símbolo “/”.
Por exemplo: “Corte as frases, / desta maneira, / em períodos curtos. / Depois, / leia tudo / com calma / observando cada momento / de respirar”. A ideia é contar três segundos entre cada segmento.
No início, você pode ter a sensação de que as suas pausas estão durando uma eternidade, mas com o tempo tudo fica muito natural e relaxante.
Segundo Thibodeaux, as vantagens de se expressar de forma pausada vão além dos efeitos sobre a plateia — há benefícios importantes também para quem está se apresentando. 
O motivo é emocional. Para a maioria dos profissionais, falar em público causa grande ansiedade: esse é o 4º maior medo das pessoas, atrás apenas de acidentes de trânsito, morte e aranhas, segundo uma recente pesquisa com cerca de mil jovens nos Estados Unidos.
Em entrevista a EXAME.com, Malcolm Love, especialista em comunicação em público com passagem pela BBC, diz que o pavor de se expressar diante de um grupo de pessoas é comum em diversas culturas – das mais tímidas às mais extrovertidas – graças a um temor universal: o do julgamento.
Seguir o exemplo de Barack Obama pode ajudar a superar esse medo. “Truques como aprender a fazer pausas ajudam muito a causar uma boa impressão, o que cria vivências positivas na hora de se apresentar em público e acalma a ansiedade”, afirma Thibodeaux.
Por via das dúvidas…não custa nada…ver como você se sai.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Feliz crise para você

Enquanto todos falam de crise, que realmente existe, tem gente conseguindo crescer. Ao conversar com muitos executivos que em 2016 assumiram cadeiras acima das que ocupavam, ouvi que eles encontraram a oportunidade que precisavam para mostrar que estavam ‘sub-utilizados’. Estavam mesmo?

Por Roberto Aylmer*
A crise nos leva a um novo patamar de reflexão e entendimento de que nossa viagem nesta terra não é a passeio | <i>Crédito: Pexels
A crise nos leva a um novo patamar de reflexão e entendimento de que nossa viagem nesta terra não é a passeio | Crédito: Pexels
De certa forma, todos nós sentimos ou somos subutilizados. Nosso cérebro busca isso: economia de energia. O corpo e a mente tendem à acomodação como forma de reduzir o consumo de energia. Vale lembrar que nossa biologia não evolui na mesma velocidade que nossos hábitos sociais. Ainda temos um cérebro com a mesma configuração do tempo em que o homem começou a plantar e a se fixar na terra. Nessa época, gastar mais caloria do que era possível ingerir significaria a morte em algum momento. Se a conta não fechasse, não tinha ‘cheque especial’, a pessoa morria.

Então, todos os nossos sistemas biológicos foram ‘ajustados de fábrica’ com o modo ECO, ou seja, buscando gastar o menos possível. Mas o tempo passou e o homem aprendeu a coletar água e, com isso, ganhou mais mobilidade. Depois, a estocar comida (salgando as carnes), podendo ter um estoque de calorias. Com o avanço da sociedade, mais estoques de água e comida e descobrimos a obesidade, que é o oposto da necessidade, afinal acumulamos mais do que conseguimos consumir.

Da mesma forma vemos, hoje, este processo em nossa jornada profissional. É muito comum em treinamentos ouvir alguém dizer: “eu já sei isso”. A minha pergunta de volta é: “Ok, você já sabe, mas quanto disso aparece em sua prática de liderança? O que seus pares e liderados falariam que você faz disso que diz saber em sua prática diária?”. A verdade é que sabemos mais do que fazemos. É tudo baseado na biologia do desenvolvimento: economizar para sobreviver. Simples. Natural. 

Mas aí vem a crise, desalojando tudo o que era conhecido e desorganizando certezas. A crise é caracterizada por quatro grandes forças que formam o contexto VUCA, um acrônimo criado pelas forças armadas americanas para lidar com combates no deserto, onde as condições eram muito instáveis. 

VUCA diz respeito à Volatilidade (quando as variáveis mudam a uma velocidade que não conseguimos acompanhar), à Incerteza (em inglês, Uncertainty, quando não se entende ou não se tem interpretação confiável do contexto), à Complexidade (quando novas e desconhecidas variáveis entram no jogo e afetam a equação do equilíbrio) e à Ambiguidade (múltipla interpretação da mesma situação).

No mundo VUCA, as mudanças têm aumentado em alcance e velocidade, desafiando as antigas estratégias que usamos para conseguir sobreviver, parafraseando Darwin, que no final do Século XIX falava que a sobrevivência não era do mais forte, mas sim do que mais se ajustasse à mudança. Em outras palavras, o mais adaptável. Então, se por um lado precisamos da estabilidade para construir, precisamos da instabilidade para evoluir.

Esse paradoxo é a base da história humana. Tempos de crescimento e prosperidade alternados com tempos de crises e carências. Ambos fazem parte do processo, como duas asas de um mesmo pássaro. Tire uma delas e ele nunca mais voará.

Encontrei uma boa metáfora dessa situação numa charge que vi num jornal onde um casal que tinha uma vida tranquila, mas chegando aos 40 anos, um fala para o outro: “Precisamos de mais aventura… Vamos ter um filho?”. No quadrinho seguinte aparecem os dois, no meio de um monte de fraldas, com olheiras e cara de desespero e aí um deles fala: “Acho que exageramos na aventura”.

Todo mundo que tem filhos já passou pelo desespero de ter sua vida transtornada por aquele pequeno ser, já pensou em jogá-lo da janela (por isso colocamos grades), mas, pergunte se alguém voltaria atrás e daria o seu filho para outra pessoa. Impensável!

Da mesma forma, a crise nos leva a um novo patamar de reflexão e entendimento de que nossa viagem nesta terra não é a passeio. Viemos com um propósito. E quanto mais vivemos construindo este propósito, mais nos sentimos felizes. 

Em outras palavras, chegamos mais longe porque conseguimos atravessar crises. Chegamos mais felizes porque construímos um propósito que transcende nossa existência e deixa um legado. Feliz Crise para você!

*Este artigo é de autoria de Roberto Aylmer, professor da Fundação Dom Cabral

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Isto é o que Leandro Karnal espera que você faça se for demitido

Perder o emprego é um baque e tanto. Em entrevista exclusiva, professor explica como transformar a experiência do fracasso em sabedoria

São Paulo — Nada de “pensar positivo” ou acreditar que o sucesso depende apenas de você. No dia em que a vida trouxer notícias ruins, como a de uma demissão, Leandro Karnal espera que você abandone todas as respostas prontas.
Em entrevista por telefone a EXAME.com, o historiador e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) diz que o discurso típico da autoajuda se apoia em premissas pouco realistas, e ignora que o êxito e o fracasso não dependem exclusivamente do indivíduo.
Por outro lado, reconhecer o peso inegável das circunstâncias — como a crise econômica que assola o país e deve produzir quase 14 milhões de desempregados até 2018 — não significa que você não tenha nenhuma responsabilidade por um eventual desligamento.
Para Karnal, o profissional dispensado não deve se sentir um “perdedor”, até porque se colocar nessa posição só funciona como pretexto para se acomodar.
A saída mais interessante é aproveitar o lado útil do fracasso: a oportunidade de refletir sobre as suas fraquezas, aceitar o lado trágico da vida e construir uma nova atitude. “A felicidade engorda, enquanto a tristeza faz você se movimentar”, resume o professor. 
Confira a seguir os principais trechos da conversa:
EXAME.com – Até que ponto o fracasso é culpa do indivíduo?
Leandro Karnal – Hoje existe um discurso dominante de que 100% do que acontece nas nossas vidas depende das nossas escolhas. Isso nasce de um certo pensamento liberal do início do século XIX, que tem uma dose de perversidade. É como se todo mundo que está mal tivesse optado por estar mal, e que todos podem estar bem — basta querer. 
É o que embasa a ideia de que a pobreza é responsabilidade completa da pessoa, assim como a riqueza. Grande parte da autoajuda que percorre as palestras brasileiras diz: “Se você acreditar que é um vencedor, certamente vai vencer”. É uma crença excessiva na liberdade do indivíduo. 
Teorias de diversas naturezas, da religião à psicanálise, contrariam essa tese. Não somos tão racionais, nossas escolhas não nascem de uma liberdade total e o acidente tem um papel muito maior do que imaginamos. Isso inclui até teorias de esquerda, como as de Thomas Piketty, que fala sobre a exclusão produzida de forma inevitável pelo nosso sistema.
Ao desenvolver a teoria psicanalítica, Sigmund Freud mostrou que as nossas ações são fruto de uma coleção de traumas e experiências infantis, e que certos graus de neurose e patologia existem em todos nós, até naqueles que não estão em casas psiquiátricas. Desde que Freud determinou isso, sabemos que há dificuldades estruturais com essa liberdade.
EXAME.com – O que se pode concluir, então?
Leandro Karnal – Tenho usado em minhas palestras duas noções desenvolvidas por Nicolau Maquiavel: a “virtù”, total de habilidades e competências que nascem comigo e que posso desenvolver, e a “fortuna”, que significa o acaso, a sorte, o azar, o inesperado.
Ninguém é tão divino (só “virtù”) e nem tão objeto inanimado e suscetível às circunstâncias (pura “fortuna”). No gráfico imaginário formado pelas retas “virtù” e “fortuna”, somos um traço tenso e curvo. Faz muita diferença a escolha do indivíduo. Mas nem sempre esse indivíduo lida com uma lógica absoluta, ele faz sua escolha dentro do possível.
EXAME.com – Diante de uma demissão, muitas pessoas se sentem “um lixo”, porque acham que tudo depende da tal “virtù”. Outras culpam a crise e negam qualquer responsabilidade pelo que aconteceu, como se tudo fosse resultado da “fortuna”…
Leandro Karnal – Sim. Acontece que, se você se sente um “lixo”, talvez você esteja certo. Mas a pergunta que realmente importa é: qual é a etapa seguinte? O que você vai fazer para mudar? É paralisante se sentir um “lixo” porque no fundo isso é um recurso psíquico para não agir. É uma forma de defesa, de preguiça, como se você dissesse: “Não dá, eu sou um fracassado mesmo, não preciso fazer mais nada”. Não há alegria maior do que entender que eu nunca mais vou emagrecer. Perdi o limite, engordei muito e agora não tenho como retroceder, então agora estou alegre. O fracasso é uma zona de conforto.
Outra forma de paralisia é atribuir tudo a forças exteriores. “Eu sou bom, mas sou perseguido”. “Sou competente, mas este país não presta”. Quando eu atribuo a responsabilidade de tudo a terceiros — destino, signo, Deus, governo — eu passo a viver também numa zona de conforto. Você diz, na prática, que não é gestor da sua vida.
Gosto de dizer que você é sócio majoritário do projeto da sua biografia. Ser sócio majoritário não significa poder controlar tudo, funcionários, fornecedores, clientes. Mas a responsabilidade é muito maior do que creem os deterministas.
EXAME.com – De que forma o autoconhecimento pode ajudar uma pessoa que está vivendo uma fase ruim na carreira?  
Leandro Karnal – Se você olha para si mesmo com muita honestidade, se encara o retrato terrível da Medusa, que é o seu lado difícil, você tem a primeira chance de encará-lo e superá-lo. É preciso se observar sem máscaras, ou com menos máscaras.
É o que diz a máxima “Conhece a ti mesmo”, que funda a filosofia de Sócrates. Quando você não se conhece, acaba sendo controlado por partes de si, sua dor, seus traumas. É preciso investigar a si mesmo para perceber que você também é preguiça, você também é raiva. Se você sabe disso, fica mais fácil aceitar e diminuir o efeito dessas fraquezas.
Se eu descobrir, por exemplo, que a irritação com o meu chefe reproduz uma relação com a autoridade paterna mal resolvida, posso perceber que, na hora em que o meu chefe é chato, quem deve reagir é o funcionário Leandro, e não a criança Leandro.
Por outro lado, conhecer a si mesmo também é conhecer o que há de bom em mim mesmo, e também aquilo que me traz bem-estar. É muito comum ver pessoas que dizem que a carreira é tudo para elas, mas sofrem de úlcera e gastrite no domingo à noite. Elas não se conhecem, não sabem o que realmente querem.
A autoajuda falha porque pressupõe um modelo que não existe. Há pessoas que adoram atividades repetitivas. Outras são pouco ambiciosas e só são felizes se puderem ficar em patamares fixos. Há indivíduos viciados em desafios. Eu preciso saber do meu perfil. Não posso contrariar permanentemente a minha natureza.
EXAME.com – O fracasso pode criar um ciclo vicioso: a melancolia gera mais problemas e os problemas geram mais melancolia. Como escapar desse mecanismo?
Leandro Karnal – Em primeiro lugar, é preciso aceitar que há uma parte da vida que necessariamente dá errado. A morte chegará. As pessoas que eu amo podem desaparecer. Posso perder o emprego. Posso ser uma pessoa ruim. A existência tem sempre uma dimensão trágica. Tristeza não é um problema, não é algo excepcional.
Note que estou falando de tristeza, não de depressão. Depressão é uma doença grave, que requer acompanhamento profissional e tratamento. Já a tristeza é uma ferramenta de aprendizado. Se eu não quero sair da tristeza, é porque ela me dá um conforto. Talvez o meu medo de enfrentar um novo mercado de trabalho seja tão grande que eu vou me refugiar na melancolia. “Não dá, não tem jeito, é assim mesmo”. Porque o medo é maior.
Acontece que os países, as empresas e as pessoas se reorganizam na crise — para o bem ou para o mal. É a partir de uma crise nacional profunda que emerge a figura de um Winston Churchill. É também numa crise nacional profunda que emerge um Adolf Hitler. A crise é um grande momento, pode gerar muitas transformações e aprendizados.
O problema é que a “geração Facebook” acha que a vida só é plena se você pode publicar fotos felizes. Na verdade, a felicidade engorda. A tristeza faz você se movimentar.
EXAME.com – A morte do sociólogo Zygmunt Bauman no início do ano reacendeu o debate sobre a deterioração das relações humanas na era da internet. Redes sociais como o Facebook geram uma falsa ideia sobre o sucesso alheio?
Leandro Karnal – Toda tecnologia é neutra. Um martelo pode fixar um prego para pendurar um quadro, mas também pode assassinar uma pessoa. A rede também é neutra, tudo depende do que fazemos com ela.
Vivemos na sociedade do espetáculo, em que toda a atenção é voltada para imagem. O que precisamos entender é que tudo aquilo que se publica no Facebook é de autoria de um roteirista. É alguém construindo uma imagem. Se eu acredito naquilo, o problema não é a internet, mas a minha dor e o meu vazio. A rede alimenta um problema antigo, que é enxergar no outro o fracasso dos meus próprios projetos.
EXAME.com – A inveja pode ensinar alguma coisa?
Leandro Karnal –  O sucesso alheio me incomoda porque não estou olhando para mim mesmo, meu foco está nos demais. A palavra “inveja” é formada por “in” e “vedere”, que significam “não ver” em latim. Quando não me vejo, não enxergo o meu próprio desempenho, olho excessivamente para o outro. 
A psicanálise diz que, se você sentiu dor pela felicidade do outro, isso é uma pista maravilhosa, porque revela algo sobre você e sobre o que você quer. Refletir sobre a própria inveja ajuda a reconhecer os seus desejos, entender os seus fracassos, olhar de novo para si mesmo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

7 técnicas de estudo para quem não consegue se concentrar

Você se distrai com qualquer coisa enquanto está se preparando para uma prova? Veja como manter o foco nos estudos, segundo especialistas

São Paulo — Uma pessoa entra na biblioteca. A tela do seu celular brilha com a chegada de uma nova mensagem. Você se lembra de uma música e decide escutá-la. Se você é um distraído crônico, qualquer motivo é suficiente para interromper o estudo para uma prova.
A falta de concentração cobra seu preço mais cedo ou mais tarde. Afinal, é preciso ter contato intenso e contínuo com a matéria para ter sucesso em provas complexas como concursos públicos, exames de proficiência em línguas ou testes de admissão em programas de pós-graduação.
Continuidade é justamente o maior desafio dos dispersivos, afirma Alessandro Saade, fundador do projeto “Empreendedores Compulsivos”. Ele próprio se identifica com o perfil. “Além de déficit de atenção, sou muito curioso e não resisto à tentação de ler uma notícia ou pesquisar sobre algo interessante que surja no meio do meu trabalho”, afirma.
A tecnologia incrementa o potencial de sedução das distrações. O smartphone, especialmente, é um “veneno” para quem quer estudar. A única saída é se disciplinar e se afastar totalmente do aparelho, diz Saade. Uma sugestão é estabelecer um momento para ver as notificações — uma vez a cada 30 minutos de estudo, por exemplo.
Outra recomendação básica é buscar um ambiente de estudos organizado, limpo, silencioso e confortável. Quanto menos incômodos houver, melhor: é importante buscar uma cadeira ou poltrona ergonômica e garantir que você está bem alimentado.
Água também é essencial para manter o cérebro funcionando a todo o vapor. Um experimento feito por pesquisadores ingleses mostrou que pessoas com sede demoram mais tempo para completar tarefas do que aquelas que estão bem hidratadas.
De acordo com Andrea Piscitelli, consultora e professora da FIA (Fundação Instituto de Administração) as fontes mais comuns de distração são barulhos externos, como estímulos sonoros ou visuais do ambiente, mas não se pode ignorar o poder dos “barulhos internos” — nosso fluxo de pensamentos sobre diversos anseios, preocupações e emoções.
“Isso faz com que você tenha a sensação de que a leitura está difícil ou improdutiva”, diz a especialista. “O mais interessante é que surge um mecanismo de compensação para sentir algum alívio imediato, como acessar o smartphone ou bater papo, o que desvia ainda mais a atenção”.
Quer mais ideias para manter o foco na preparação para uma prova? Confira a seguir outros antídotos contra a procrastinação:
1. Antes de começar, separe 10 minutos para se divertir
Ainda que você adore matéria que está estudando, não faltam atividades bem mais interessantes do que ler a apostila. Se você costuma interromper a sua concentração para satisfazer o desejo de ver as notícias do dia, assistir a vídeos engraçados ou escrever algo nas redes sociais, faça isso antes de começar a sua sessão de estudos.
Segundo Saade, esse truque simples ajuda a saciar a sua inquietação e relaxar. Só cuidado para não exagerar: basta passar os 10 primeiros minutos do dia dessa forma. Terminado esse prazo, é hora de interromper as distrações e se dedicar exclusivamente ao estudo.
2. Divida o tempo em blocos
Estudar para uma prova difícil sempre será uma experiência intensa, mas não necessariamente exaustiva. Talvez você tenha dificuldade para se concentrar porque se cansa rapidamente. A dica é fragmentar o trabalho em pedaços mais digeríveis.
“Faça sessões de 30 minutos, por exemplo, nas quais você vai mergulhar totalmente no que está fazendo”, diz Saade. “Terminado esse prazo, levante e vá respirar um pouco, beber água, fazer algo leve”.
3. Transforme frases em palavras-chave
Além de dividir o tempo em blocos, você também pode recortar o conteúdo a ser estudado em pequenos fragmentos. Ao elaborar um resumo, evite frases ou parágrafos — prefira palavras-chave, esquemas e listas no estilo “bullet points”.
A organização da escrita em pedacinhos facilita a vida dos dispersivos, principalmente na hora de reler tudo. Segundo Saade, é mais rápido ler palavras-chave, e também mais estimulante: você precisa ativamente pensar no nexo entre as ideias, o que exige mais do cérebro e limita a margem para divagações.
4. Prefira o exercício à teoria
De acordo com Paulo Estrella, diretor pedagógico da Academia do Concurso, a melhor forma de manter a concentração é tornar as sessões de estudo mais rápidas, curtas e dinâmicas. Para isso, a recomendação é reduzir o volume de leituras e concentrar os seus esforços nos exercícios.
“Dê uma lida geral no conteúdo, mas não passe muitas horas debruçado no livro”, recomenda ele. “Assim que tiver uma ideia da teoria, parta para a resolução de provas de anos anteriores, e vá fixando os conceitos a partir dos seus erros e acertos”.
5. Descubra o seu estilo de aprendizagem
Se você tem facilidade para memorizar coisas a partir de um estímulo visual, pode ser interessante elaborar mapas visuais, diagramas e figuras sobre a matéria. Caso se dê melhor com resumos escritos à mão, prepare o lápis e a caneta. Tem um perfil auditivo? Vale mais gravar a sua própria voz dando uma “aula” sobre o assunto e depois escutá-la. 
O importante, diz Estrella, é descobrir qual é o método de aprendizagem que mais combina com o seu modelo mental. Quando você encontra o seu próprio estilo, a compreensão dos conceitos fica mais fácil e rápida. Resultado: o estudo se torna mais estimulante e as distrações perdem (pelo menos em parte) o seu potencial de sedução.
6. De tempos em tempos, retome o conteúdo
A cada 20 minutos de estudo, sugere Piscitelli, faça uma rápida anotação ou gravação de voz sobre os aspectos mais relevantes do que acabou de ler, isto é, uma breve recapitulação do que foi visto.
Além de garantir que você não vai se dispersar, fazer essas retomadas periódicas ajuda a fixação da matéria. “Ao final da leitura, reveja os seus registros de todos os blocos de 20 minutos, e verá como está muito mais familiarizado e seguro com o conteúdo”, diz a consultora.
7. Tenha uma programação
Uma boa forma de manter o foco é ter um roteiro dos temas que você precisa estudar, com uma previsão da carga horária necessária para cada assunto. Mas atenção: ao longo do dia, gerencie o cumprimento das metas como compromissos realmente inadiáveis.
Mas como garantir que você vai respeitar a sua “check-list”? O segredo é ter um propósito para o estudo. No “estado de flow”, conceito desenvolvido pelo psicólogo Mihály Csíkszentmihályi, nossa concentração se torna absoluta quando estamos num estado emocional positivo, isto é, quando a experiência é prazerosa. “Só podemos entrar em ‘flow’ quando o estudo vai além do racional e envolve crenças e valores, isto é, quando tem um significado para nós”, resume Piscitelli.